22.12.05
2/13
que o felipe é o pai ninguém duvida. ele e o seu violão. aquela coisa de fecundação mesmo, sabem? carícias cochichos ao pé do ouvido, até que... bum! nasce a canção. e alguns anos depois, já crescida e mostrando algum desenvolvimento, ganha lugar de destaque como candidata à segunda canção do nosso novo álbum, que, o leitor cauteloso observou, possivelmente terá uma música a mais do que prevíamos originalmente.
mas vamos ser justos.
estamos perto do natal, e sabemos mais do que nunca o quanto os entes queridos são necessários para o sucesso da coisa toda.
se o felipe é o pai, por sua vez o jamil é o tio puxa saco. sabe, aquele tio, que descaradamente gosta mais de um sobrinho do que de outro, e diz o quanto o menino tem potencial e etecétera e tal? esse é o jamil com seu sobrinho que toma a segunda posição. lembro que por muito e muito tempo o jamil soltava numa frase aqui e numa ali que deveríamos tocar ela, que era dos primórdios produtivos do felipe, e que se encaixaria bem no lasciva lula.
até que um dia o felipe, na antiga jamilândia - a jaceguai - sacou seu instrumento de trabalho e despejou a melodia cantada em seus acordes de nylon. e foi nesse momento - estranhamente depois em relação às coisas naturais da vida - nasceu o avô guga_bruno.
avô é foda. na verdade é mais avó. guga_bruno que me perdoe, estimo muito sua opção sexual masculina e jamais duvidei dela, mas nessa estorinha você tá mais pra avó. aquela que paparica, que compra mil presentes, que praticamente dedica a vida ao neto.
lembro da primeira vez que o guga disse: vou comprar uma sanfoninha hering. achei engraçado, e alguns ensaios depois ele estava lá com a maldita. tocou por um ensaio inteiro a desgraçada. eu e o jamil não aguentávemos mais, mas atuávamos de forma hollywoodiana para não transparecer os nervos quase chegando às estribeiras.
no dia da gravação, de ânimos mais serenos, eu mesmo propus ao guga que o volume fosse pre-mixado mais para baixo, para nao irritar e dar para avaliar mos sem implicâncias. resultado: genial. a tal da sanfoninha sem vergonhinha parece que nasceu para a música, que, por sua vez, parece ter nascido também para a dita cuja.
essa música, ao menos na ordem em que elas estão planejadas a se apresentar ao ouvinte, marca uma diferença muito grande em relação às demais pelas coisas que inserimos nela para dar o clima que queríamos. a sanfoninha foi uma delas. um wahwah que o guga nunca usa, mas nessa ficou excepcional. um kazoo (que ao fim optamos por nem usar). um possível trombone que estamos à caça. uma bandinha de fanfarra auxiliando a bateria no lado da percussão para determinar nuances mais marcadas, soltas, volumosas ou limpas.
é isso aí.
o felipe é o pai.
o jamil é o tio.
o guga é a avó.
e eu?
eu sou apenas o vizinho, que fica olhando tudo por entre as venezianas e trato de passar a fofoca à frente.
mklz
que o felipe é o pai ninguém duvida. ele e o seu violão. aquela coisa de fecundação mesmo, sabem? carícias cochichos ao pé do ouvido, até que... bum! nasce a canção. e alguns anos depois, já crescida e mostrando algum desenvolvimento, ganha lugar de destaque como candidata à segunda canção do nosso novo álbum, que, o leitor cauteloso observou, possivelmente terá uma música a mais do que prevíamos originalmente.
mas vamos ser justos.
estamos perto do natal, e sabemos mais do que nunca o quanto os entes queridos são necessários para o sucesso da coisa toda.
se o felipe é o pai, por sua vez o jamil é o tio puxa saco. sabe, aquele tio, que descaradamente gosta mais de um sobrinho do que de outro, e diz o quanto o menino tem potencial e etecétera e tal? esse é o jamil com seu sobrinho que toma a segunda posição. lembro que por muito e muito tempo o jamil soltava numa frase aqui e numa ali que deveríamos tocar ela, que era dos primórdios produtivos do felipe, e que se encaixaria bem no lasciva lula.
até que um dia o felipe, na antiga jamilândia - a jaceguai - sacou seu instrumento de trabalho e despejou a melodia cantada em seus acordes de nylon. e foi nesse momento - estranhamente depois em relação às coisas naturais da vida - nasceu o avô guga_bruno.
avô é foda. na verdade é mais avó. guga_bruno que me perdoe, estimo muito sua opção sexual masculina e jamais duvidei dela, mas nessa estorinha você tá mais pra avó. aquela que paparica, que compra mil presentes, que praticamente dedica a vida ao neto.
lembro da primeira vez que o guga disse: vou comprar uma sanfoninha hering. achei engraçado, e alguns ensaios depois ele estava lá com a maldita. tocou por um ensaio inteiro a desgraçada. eu e o jamil não aguentávemos mais, mas atuávamos de forma hollywoodiana para não transparecer os nervos quase chegando às estribeiras.
no dia da gravação, de ânimos mais serenos, eu mesmo propus ao guga que o volume fosse pre-mixado mais para baixo, para nao irritar e dar para avaliar mos sem implicâncias. resultado: genial. a tal da sanfoninha sem vergonhinha parece que nasceu para a música, que, por sua vez, parece ter nascido também para a dita cuja.
essa música, ao menos na ordem em que elas estão planejadas a se apresentar ao ouvinte, marca uma diferença muito grande em relação às demais pelas coisas que inserimos nela para dar o clima que queríamos. a sanfoninha foi uma delas. um wahwah que o guga nunca usa, mas nessa ficou excepcional. um kazoo (que ao fim optamos por nem usar). um possível trombone que estamos à caça. uma bandinha de fanfarra auxiliando a bateria no lado da percussão para determinar nuances mais marcadas, soltas, volumosas ou limpas.
é isso aí.
o felipe é o pai.
o jamil é o tio.
o guga é a avó.
e eu?
eu sou apenas o vizinho, que fica olhando tudo por entre as venezianas e trato de passar a fofoca à frente.
mklz
14.12.05
entrei mudo.
mas 10 minutos atrasado e meio perdido.
a coisa aconteceu tão de repente que não teve como o felipe, guga ou jamil darem uma fugida dos seus respectivos trabalhos. como eu dei a sorte de conseguir, estava então lá, tentando descobrir o local exato dentro do cemitério são joão batista, onde estaria acontecendo o enterro do grande liô mariz, do som da rua.
é muito curioso como a gente trata a morte, ou pelo menos como eu o faço. quando ela vem meio que avisada eu encaro de forma super corriqueira, mas assim do nada é inacreditável. enquanto eu olhava praquele caixão eu não conseguia parar de pensar como de forma incrivel, literalmente da noite pro dia, uma pessoa deixa de existir para sempre de forma totalmente inesperada. é quase como se fosse um pesadelo de onde somos incapazes de acordar.
quando encontrei o provável grupo, por coincidência chegava por onde estava indo o caixão, e com ele as pessoas mais próximas se aproximavam. reconheci meu acerto pela namorada do liô, que não conheço pessoalmente, mas com quem já havia visto ele em várias ocasiões. os olhos daquela menina me chamaram muito à atenção. neles estavam expressos nítidamente toda a tristeza e inconformidade da perda. deve ser uma situação insuportável, e que não desejo pra ninguém, essa da impotência. a coisa acontece e você simplesmente não tem nada para fazer, a não ser lamentar. eu não tenho nem palavras de consolo, pois não saberia o que dizer, mas pelos olhos dela sei o quanto se amavam - e pelas dezenas de dezenas de pessoas que também faziam um mar de lágrimas, tristeza e óculos escuros.
estou longe de ter sido amigo do liô, não por não gostar dele - muito pelo contrário - mas por não conviver com a peça. mas pelos nossos ainda que poucos papos, trocas de emails e apresentações, ele era um cara pra cima, que acreditava no que fazia, fazia com qualidade e lutava pelo espaço não só dele mas de todos nós envolvidos com o que se chama de "arte".
fica mais triste o mundo dos vivos e torna-se mais digna a cidade dos mortos. não acredito em nenhuma crença religiosa, mas acredito que o que se admira se absorve... então que as coisas boas dele sejam propagadas pela multidão que lá estava.
aliás reconheci inúmeras pessoas, mas não tive vontade de falar com ninguém. não era exatamente um evento social. não era nem para nada disso estar acontecendo. me auto-parafraseando-a-mim-próprio, "há males que vêm pra bem, mas há outros que só vêm pra nos sacanear".
saí calado.
mas 10 minutos atrasado e meio perdido.
a coisa aconteceu tão de repente que não teve como o felipe, guga ou jamil darem uma fugida dos seus respectivos trabalhos. como eu dei a sorte de conseguir, estava então lá, tentando descobrir o local exato dentro do cemitério são joão batista, onde estaria acontecendo o enterro do grande liô mariz, do som da rua.
é muito curioso como a gente trata a morte, ou pelo menos como eu o faço. quando ela vem meio que avisada eu encaro de forma super corriqueira, mas assim do nada é inacreditável. enquanto eu olhava praquele caixão eu não conseguia parar de pensar como de forma incrivel, literalmente da noite pro dia, uma pessoa deixa de existir para sempre de forma totalmente inesperada. é quase como se fosse um pesadelo de onde somos incapazes de acordar.
quando encontrei o provável grupo, por coincidência chegava por onde estava indo o caixão, e com ele as pessoas mais próximas se aproximavam. reconheci meu acerto pela namorada do liô, que não conheço pessoalmente, mas com quem já havia visto ele em várias ocasiões. os olhos daquela menina me chamaram muito à atenção. neles estavam expressos nítidamente toda a tristeza e inconformidade da perda. deve ser uma situação insuportável, e que não desejo pra ninguém, essa da impotência. a coisa acontece e você simplesmente não tem nada para fazer, a não ser lamentar. eu não tenho nem palavras de consolo, pois não saberia o que dizer, mas pelos olhos dela sei o quanto se amavam - e pelas dezenas de dezenas de pessoas que também faziam um mar de lágrimas, tristeza e óculos escuros.
estou longe de ter sido amigo do liô, não por não gostar dele - muito pelo contrário - mas por não conviver com a peça. mas pelos nossos ainda que poucos papos, trocas de emails e apresentações, ele era um cara pra cima, que acreditava no que fazia, fazia com qualidade e lutava pelo espaço não só dele mas de todos nós envolvidos com o que se chama de "arte".
fica mais triste o mundo dos vivos e torna-se mais digna a cidade dos mortos. não acredito em nenhuma crença religiosa, mas acredito que o que se admira se absorve... então que as coisas boas dele sejam propagadas pela multidão que lá estava.
aliás reconheci inúmeras pessoas, mas não tive vontade de falar com ninguém. não era exatamente um evento social. não era nem para nada disso estar acontecendo. me auto-parafraseando-a-mim-próprio, "há males que vêm pra bem, mas há outros que só vêm pra nos sacanear".
saí calado.
7.12.05
1/12
a que até então se mostra como xodó do público é a mais cotada para abrir o novo álbum. essa música tem uma história curiosa. teve um ensaio em que o guga não pôde ir, ou chegou atrasado, ou algo do gênero. a gente, meio perdido sem a guitarra do muleque, tava pensando o que deveria ser feito para aproveitar melhor o tempo que tínhamos naquele momento.
"não tem nenhum novo sucesso na manga não?" disparo minha clássica e irônico-brincalhona frase para o felipe, que insiste em calar a minha boca com acordes e palavras que nos fazem ter orgulho em tocar no lasciva lula.
gostamos tanto dela e a empatia foi tão grande entre nós 4 (nós 3 + a música) que talvez tenha sido a música da gente que foi arranjada em menos tempo. nessa mesma noite a dita cuja estava qual a estrutura e nuances praticamente definitivas como são até hoje.
ao apresentar essa música pro guga, ele ouvia e pouco tocava, ou melhor, tocava mas pouco repetia o que tocava, como quem estivesse estudando a melhor forma de se inserir nela. foram alguns ensaios de zoação, onde mexíamos com ele o chamando de "piantra" quanto ao jeito incomum que ele entoava as notas. mas então, ela ficou pronta.
gravamos em 2 ensaios experimentais ao longo de sua vida, com resultados que nunca excederiam a palavra "razoável". gravamos uma vez com mais cuidado, para um possível lançamento, e de qualidade já bem superior, parecia ainda um pouco lenta. nos shows - com certeza impulsionados pela minha empolgação desmedida - a levávamos muito rápido. a gente hoje em dia ouve gravações antigas e dá longas e lentas risadas da música que durava apenas pouco mais de um minuto sobre os palcos.
enfim, acertamos a mão, acho, para o cd. o andamento está muito bom, a mixagem e peso estão caminhando para a satisfação de nossos ouvidos - e creiam vocês, são irritantemente exigentes esses nossos 4 pares de ouvidos - e a guitarra do guga, que entrou depois, hoje em dia praticamente virou o elemento principal da canção.
maldito guga_bruno!
a que até então se mostra como xodó do público é a mais cotada para abrir o novo álbum. essa música tem uma história curiosa. teve um ensaio em que o guga não pôde ir, ou chegou atrasado, ou algo do gênero. a gente, meio perdido sem a guitarra do muleque, tava pensando o que deveria ser feito para aproveitar melhor o tempo que tínhamos naquele momento.
"não tem nenhum novo sucesso na manga não?" disparo minha clássica e irônico-brincalhona frase para o felipe, que insiste em calar a minha boca com acordes e palavras que nos fazem ter orgulho em tocar no lasciva lula.
gostamos tanto dela e a empatia foi tão grande entre nós 4 (nós 3 + a música) que talvez tenha sido a música da gente que foi arranjada em menos tempo. nessa mesma noite a dita cuja estava qual a estrutura e nuances praticamente definitivas como são até hoje.
ao apresentar essa música pro guga, ele ouvia e pouco tocava, ou melhor, tocava mas pouco repetia o que tocava, como quem estivesse estudando a melhor forma de se inserir nela. foram alguns ensaios de zoação, onde mexíamos com ele o chamando de "piantra" quanto ao jeito incomum que ele entoava as notas. mas então, ela ficou pronta.
gravamos em 2 ensaios experimentais ao longo de sua vida, com resultados que nunca excederiam a palavra "razoável". gravamos uma vez com mais cuidado, para um possível lançamento, e de qualidade já bem superior, parecia ainda um pouco lenta. nos shows - com certeza impulsionados pela minha empolgação desmedida - a levávamos muito rápido. a gente hoje em dia ouve gravações antigas e dá longas e lentas risadas da música que durava apenas pouco mais de um minuto sobre os palcos.
enfim, acertamos a mão, acho, para o cd. o andamento está muito bom, a mixagem e peso estão caminhando para a satisfação de nossos ouvidos - e creiam vocês, são irritantemente exigentes esses nossos 4 pares de ouvidos - e a guitarra do guga, que entrou depois, hoje em dia praticamente virou o elemento principal da canção.
maldito guga_bruno!
1.12.05
Estamos aqui na casa do Jamil fazendo uma gravação tosca de uma música que vai entrar no disco. Servirá de base para arranjarmos os instrumentos e definirmos a estrutura dela. Chamamos, por enquanto, de "Cinema", "Cinematógrafo", "Sinopse", mas não há título ainda. A letra conta uma reação psicopata a um filme. Eu fiquei perturbado quando vi "Assassinos por natureza". Quando vi "Réquiem para um sonho" tive taquicardia. Quando vi "Ônibus 174", também. Quando vi "Laranja mecânica", rebobinei a fita e vi de novo. Quando vi o clipe de "Minha alma", do Rappa, chorei. Ô maradzáia sô ê, záia, záia, raíííínha do mã, como já diria Chico César.